5. COMPORTAMENTO 10.4.13

1. POR QUE AS COTAS RACIAIS DERAM CERTO NO BRASIL
2. O FACEBOOK DA HOSPEDAGEM
3. REALEZA SEM PRIVILGIOS
4. LEI CAROLINA DIECKMANN: APENAS O PRIMEIRO PASSO
5. CICLISTAS MAIS PROTEGIDOS
6. A INDIANA JONES DO AMAZONAS
7. SELVAGERIA  BRASILEIRA

1. POR QUE AS COTAS RACIAIS DERAM CERTO NO BRASIL
Poltica de incluso de negros nas universidades melhorou a qualidade do ensino e reduziu os ndices de evaso. Acima de tudo, est transformando a vida de milhares de brasileiros
Amauri Segalla, Mariana Brugger e Rodrigo Cardoso

Antes de pedalar pelas ruas de Amsterd com uma bicicleta vermelha e um sorriso largo, como fez na tarde da quarta-feira da semana passada, caro Lus Vidal dos Santos, 25 anos, percorreu um caminho duro, mas que poderia ter sido bem mais tortuoso. Talvez instransponvel. Ele foi o primeiro cotista negro a entrar na Faculdade de Medicina da Federal da Bahia. Formando da turma de 2011, caro trabalha como clnico geral em um hospital de Salvador. A foto ao lado celebra a alegria de algum que tinha tudo para no estar ali.  que, no Brasil, a cor da pele determina as chances de uma pessoa chegar  universidade. Para pobres e alunos de escolas pblicas, tambm so poucas as rotas disponveis. Como tantos outros, caro rene vrias barreiras numa s pessoa: sempre frequentou colgio gratuito, sempre foi pobre  e  negro. Mesmo assim, sua histria  diferente. Contra todas as probabilidades, tornou-se doutor diplomado, com dinheiro suficiente para cruzar o Atlntico e saborear a primeira viagem internacional. Sem a poltica de cotas, ele teria passado os ltimos dias pedalando nas pontes erguidas sobre os canais de Amsterd? Impossvel dizer com certeza, mas a resposta lgica seria no.

Desde que o primeiro aluno negro ingressou em uma universidade pblica pelo sistema de cotas, h dez anos, muita bobagem foi dita por a. Os crticos ferozes afirmaram que o modelo rebaixaria o  nvel educacional e degradaria as universidades. Eles tambm disseram que os cotistas jamais acompanhariam o ritmo de seus colegas mais iluminados e isso resultaria na desistncia dos negros e pobres beneficiados pelos programas de incluso. Os arautos do pessimismo profetizaram discrepncias do prprio vestibular, pois os cotistas seriam aprovados com notas vexatrias se comparadas com o desempenho da turma considerada mais capaz. Para os apocalpticos, o sistema de cotas culminaria numa decrepitude completa: o dio racial seria instalado nas salas de aula universitrias, enquanto negros e brancos construiriam muros imaginrios entre si. A segregao venceria e a mediocridade dos cotistas acabaria de vez com o mundo acadmico brasileiro. Mas, surpresa: nada disso aconteceu. Um por um, todos os argumentos foram derrotados pela simples constatao da realidade. At agora, nenhuma das justificativas das pessoas contrrias s cotas se mostrou verdadeira, diz Ricardo Vieiralves de Castro, reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

As cotas raciais deram certo porque seus beneficiados so, sim, competentes. Merecem, sim, frequentar uma universidade pblica e de qualidade. No vestibular, que  o princpio de tudo, os cotistas esto s um pouco atrs. Segundo dados do Sistema de Seleo Unificada, a nota de corte para os candidatos convencionais a vagas de medicina nas federais foi de 787,56 pontos. Para os cotistas, foi de 761,67 pontos. A diferena entre eles, portanto, ficou prxima de 3%. ISTO entrevistou educadores e todos disseram que essa distncia  mais do que razovel. Na verdade,  quase nada. Se em uma disciplina to concorrida quanto medicina um coeficiente de apenas 3% separa os privilegiados, que estudaram em colgios privados, dos negros e pobres, que frequentaram escolas pblicas, ento  justo supor que a diferena mnima pode, perfeitamente, ser igualada ou superada no decorrer dos cursos. Depende s da disposio do aluno. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma das mais conceituadas do Pas, os resultados do ltimo vestibular surpreenderam. A maior diferena entre as notas de ingresso de cotistas e no cotistas foi observada no curso de economia, diz ngela Rocha, pr-reitora da UFRJ. Mesmo assim, essa distncia foi de 11%, o que, estatisticamente, no  significativo.

Por ser recente, o sistema de cotas para negros carece de estudos que renam dados gerais do conjunto de universidades brasileiras. Mesmo analisados separadamente, eles trazem respostas extraordinrias.  de se imaginar que os alunos oriundos de colgios privados tenham, na universidade, desempenho muito acima de seus pares cotistas. Afinal, eles tiveram uma educao exemplar, amparada em mensalidades que custam pequenas fortunas. Mas a esperada superioridade estudantil dos no cotistas est longe de ser verdade. A Uerj analisou as notas de seus alunos durante 5 anos. Os negros tiraram, em mdia, 6,41. J os no cotistas marcaram 6,37 pontos. Caso isolado? De jeito nenhum. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que tambm  referncia no Pas, uma pesquisa demonstrou que, em 33 dos 64 cursos analisados, os alunos que ingressaram na universidade por meio de um sistema parecido com as cotas tiveram performance melhor do que os no beneficiados. E ningum est falando aqui de disciplinas sem prestgio. Em engenharia de computao, uma das novas fronteiras do mercado de trabalho, os estudantes negros, pobres e que frequentaram escolas pblicas tiraram, no terceiro semestre, mdia de 6,8, contra 6,1 dos demais. Em fsica, um bicho de sete cabeas para a maioria das pessoas, o primeiro grupo cravou 5,4 pontos, mais dos que os 4,1 dos outros (o que d uma diferena espantosa de 32%).

Em um relatrio interno, a Unicamp avaliou que seu programa para pobres e negros resultou em um bnus inesperado. Alm de promover a incluso social e tnica, obtivemos um ganho acadmico, diz o texto. Ora, os pessimistas no diziam que os alunos favorecidos pelas cotas acabariam com a meritocracia? No afirmavam que a qualidade das universidades seria colocada em xeque? Por uma sublime ironia, foi o inverso que aconteceu. E se a diferena entre cotistas e no cotistas fosse realmente grande, significaria que os programas de incluso estariam condenados ao fracasso? Esse tipo de anlise  igualmente discutvel. Em um Pas to desigual quanto o Brasil, falar em meritocracia no faz sentido, diz Nelson Inocncio, coordenador do ncleo de estudos afrobrasileiros da UnB. Com as cotas, no  o mrito que se deve discutir, mas, sim, a questo da oportunidade. Ricardo Vieiralves de Castro fala do dever intrnseco das universidades em, afinal, transformar  seus alunos  mesmo que cheguem  sala de aula com deficincias de aprendizado. Se voc no acredita que a educao  um processo modificador e civilizatrio, que o conhecimento  capaz de provocar grandes mudanas, no faz sentido existir professores. No faz sentido existir nem sequer universidade.

Mas o que explica o desempenho estudantil eficiente dos cotistas? Os alunos do modelo de incluso so sobreviventes, aqueles que sempre foram os melhores de sua turma, diz Maurcio Kleinke, coordenador-executivo do vestibular da Unicamp. Kleinke faz uma anlise interessante do fenmeno. Eles querem, acima de tudo, mostrar para os outros que so capazes e, por isso, se esforam mais. Segundo o professor da Unicamp, os mais favorecidos sabem que, se tudo der errado na universidade, podem simplesmente deixar o curso e voltar para os braos firmes e seguros de seus pais. Para os negros e pobres,  diferente. Eles no sofrem da crise existencial que afeta muitos alunos universitrios e que faz com que estes desistam do curso para tentar qualquer outra coisa. Advogado que entrou na PUC do Rio por meio de um sistema de cotas, Renato Ferreira dos Santos concorda com essa teoria. Ns, negros, no podemos fazer corpo mole na universidade, diz. Tambm professor do departamento de psicologia da Uerj, Ricardo Vieiralves de Castro vai alm. H um esforo diferenciado do aluno cotista, que agarra essa oportunidade como uma chance de vida, diz o educador. Ele faz um esforo pessoal de superao. Esse empenho, diz o especialista,  detectvel a cada perodo estudantil. O cotista comea a universidade com uma performance mediana, mas depois se iguala ao no cotista e, por fim, o supera em muitos casos.

O cotista no desiste. Se desistir, ter de voltar ao passado e enfrentar a falta de oportunidades que a vida ofereceu. Por isso, os ndices de evaso dos alunos dos programas de incluso so baixos e, em diversas universidades, at inferiores aos dos no cotistas. Para os crticos teimosos, que achavam que as cotas no teriam efeito positivo, o que se observa  a insero maior de negros no mercado de trabalho. Fizemos uma avaliao com 500 cotistas e descobrimos que 91% deles esto empregados em diversas carreiras, at naquelas que tm mais dificuldade para empregar, diz Ricardo Vieiralves de Castro. Com o diploma em mos, os negros alcanam postos de melhor remunerao, o que, por sua vez, significa uma chance de transformao para o seu grupo social. No  difcil imaginar como os filhos dos cotistas tero uma vida mais confortvel  e de mais oportunidades  do que seus pais jamais tiveram.

Por mais que os crticos gritem contra o sistema de cotas, a realidade nua e crua  que ele tem gerado uma srie de efeitos positivos. Hoje, os negros esto mais presentes no ambiente universitrio. H 15 anos, apenas 2% deles tinham ensino superior concludo. Hoje, o ndice triplicou para 6%. Ou seja: at outro dia, as salas de aula das universidades brasileiras lembravam mais a Sucia do que o prprio Brasil. Apesar da evoluo, o percentual  ridculo. Afinal de contas, praticamente a metade dos brasileiros  negra ou parda. Nos Estados Unidos, a porcentagem da populao chamada afrodescendente corresponde exatamente  participao dela nas universidades: 13%. Quem diz que no existe racismo no Brasil est enganado ou fala isso de m-f. Nos Estados Unidos, veem-se negros ocupando o mesmo espao dos brancos  nos shoppings, nos restaurantes bacanas, no aeroporto, na televiso, nos cargos de chefia. No Brasil, a classe mdia branca raramente convive com pessoas de uma cor de pele diferente da sua e talvez isso explique por que muita gente refuta os programas de cotas raciais. No fundo, o que muitos brancos temem  que os negros ocupem o seu lugar ou o de seus filhos na universidade. No h outra palavra para expressar isso a no ser racismo.

Com a aprovao recente, pelo Senado, do projeto que regulamenta o sistema de cotas nas universidades federais (e que prev que at 2016 25% do total de vagas seja destinado aos estudantes negros), as prximas geraes vo conhecer uma transformao ainda mais profunda. Os negros tero, enfim, as condies ideais para anular os impedimentos que h 205 anos, desde a fundao da primeira faculdade brasileira, os afastavam do ensino superior. Por mais que os crticos se assustem com essa mudana, ela  justa por fazer uma devida reparao. So muitos anos de escravido para poucos anos de cotas, diz o pedagogo Jorge Alberto Saboya, que fez sua tese de doutorado sobre o sistema de incluso no ensino superior. Acima de tudo, so muitos anos de preconceito. Como se elimina isso? No se combate o racismo com palavras, diz o socilogo Muniz Sodr, pesquisador da UFRJ. O que combate o racismo  a proximidade entre as diferenas. No  a proximidade entre as diferenas o que, afinal, promove o sistema de cotas brasileiro?


2. O FACEBOOK DA HOSPEDAGEM
Porque o aluguel de cmodos e at manses para turistas, por meio de redes sociais como a Airbnb, se transformou em tendncia do turismo mundial
Natlia Mestre

Sutes luxuosas, restaurantes estrelados e um concierge  disposio. A imagem do paraso para alguns soa fria e impessoal para muitos que preferem se hospedar em residncias particulares ao invs de hotis, um mtodo conhecido como hospedagem compartilhada e que vem atraindo cada vez mais seguidores por meio de redes sociais como a Airbnb. Para essas pessoas,  muito mais atraente alugar um cmodo, apartamento ou mesmo uma manso que conte uma histria e proporcione uma experincia legtima de cultura local. Conheci os lugares mais incrveis do planeta dessa forma. Alm de ser muito mais econmico, pude sentir como vivem, de fato, as pessoas dos locais por onde passei. Foram experincias muito ricas, diz o publicitrio Antnio Veloso, que j viajou para Frana, Sua, Itlia, Canad e Estados Unidos dessa forma e, desde janeiro, recebe turistas em seu apartamento no Rio de Janeiro.

EXPERINCIA - Os anfitries Ricardo Delgado ( esq.) e Daniel Becker com a belga Delia Sechilariu, em sua casa nos Jardins (SP)
 
Como ele, outros brasileiros perceberam que hospedar estrangeiros  um negcio extremamente vantajoso. Para se ter uma ideia, o Airbnb, site americano especializado em compartilhamento de casas, uma espcie de Facebook da hospedagem, abriu o seu escritrio no Brasil em maro do ano passado, com 3,5 mil anncios cadastrados. Em um ano, eles passaram para dez mil e o nmero de visitantes no Pas cresceu cerca de 574% em comparao a 2011, com turistas de 110 pases diferentes. E ir aumentar ainda mais, porque existe um movimento expressivo de brasileiros se tornando anfitries, uma consequncia direta da globalizao, da internet e das redes sociais, diz Stefan Schimenes, diretor da Airbnb no Brasil. E o nmero de brasileiros que viajam pelo mundo utilizando os servios do Airbnb tambm aumenta a cada dia. Em um ano, a quantidade de usurios do Pas passou de cinco mil para 90 mil pessoas  o Brasil  um dos dez pases que mais utiliza o site para viajar. O nmero de brasileiros que viajam cresceu 400% de 2011 para 2012. Hoje muitos turistas tm o perfil de desbravadores e buscam o inusitado, algo que fuja do padro formatado, afirma Daniela Flores, coordenadora do curso de hotelaria do Senac.
 
A Airbnb foi construda como uma grande rede social, na qual os perfis so determinantes para a aceitao do hspede ou da casa. O site estipula um valor base que varia de acordo com a casa e sua localizao, mas o preo final  definido entre hspede e anfitrio. Cerca de 3% do valor da reserva fica para o site. Vrios recursos garantem a segurana dos viajantes (leia o quadro ao lado), como o servio gratuito de fotografia, que atesta a legitimidade das imagens anunciadas. Se algo der errado, o site  obrigado a arranjar um novo local na mesma cidade, pelo mesmo preo. A Airbnb tambm tem um servio de avaliao, por meio do qual  possvel conhecer o perfil do inquilino e o que os demais hspedes escreveram sobre ele, sobre a casa e sobre a experincia de hospedagem.  um excelente termmetro para se escolher onde ficar.

CONFORTO - A ampla casa do advogado argentino Manuel Perez (segundo  esq.) em Buenos Aires: muitos hspedes brasileiros

Estamos seguindo o caminho que acreditamos ser o futuro, quando a interao entre as pessoas vai ultrapassar os limites das redes sociais, movimentando a vida e a economia delas, afirma Stefan Schimenes.
 
Foi a possibilidade de conhecer novas pessoas e fazer contatos que levou os empresrios Ricardo Delgado e Daniel Becker a hospedarem estrangeiros em sua residncia no bairro Cidade Jardim, zona nobre de So Paulo. A ideia surgiu h quatro meses, quando um dos amigos que dividia a casa com eles foi embora. Com um quarto vago e o aluguel pesado, o cadastro no Airbnb foi uma sacada de mestre: j receberam quatro hspedes por cerca de US$ 90 por dia. Nossa filosofia  fazer com que a pessoa esteja totalmente integrada ao nosso dia a dia, diz Delgado. Com o mesmo intuito, o msico paulistano Demtrius Carvalho resolveu alugar os dois quartos livres do seu apartamento na zona oeste de So Paulo. H trs semanas, havia um senhor paquistans de 78 anos em casa. H duas, um grupo com sete pessoas para o festival Lollapalooza. Em menos de um ano, hospedei 38 pessoas. Graas a isso, tenho amigos no mundo todo, fiz vrios shows fora do Pas, consigo morar sozinho em um apartamento bacana e ainda aprimorei meu ingls e espanhol. No movimento contrrio, o advogado argentino Manuel Perez recebe, desde 2011, visitantes em seu apartamento em Buenos Aires, especialmente brasileiros. Esprito hospitaleiro  essencial.  o meu tempo doado para transmitir o amor pela minha cidade para outra pessoa, afirma.


3. REALEZA SEM PRIVILGIOS
Princesa Cristina  convocada a depor em inqurito de corrupo, abalando ainda mais a desmoralizada monarquia espanhola
Natlia Mestre

 LAVAGEM DE DINHEIRO - A princesa Cristina e seu marido, Iaki Urdangarin: ela teria usado o nome do pai, o rei Juan Carlos I, no esquema
 
"Pretendo provar que a justia  igual para todos. Com essa frase, o juiz espanhol Jos Castro explicou sua deciso de intimar a princesa Cristina, filha mais nova do rei Juan Carlos I, da Espanha, num inqurito de corrupo. O indiciamento da infanta de 47 anos abalou no s a monarquia espanhola  em baixa diante de tantos escndalos  como o resto do mundo, j que a possibilidade de condenao de um membro da famlia real, uma espcie de entidade intocvel,  algo indito. A princesa  tratada como cmplice no caso que envolve seu marido, o ex-jogador de handebol Iaki Urdangarin, 45 anos. Segundo o juiz Castro, existem vrios indcios de que Cristina estaria ligada ao Instituto Nos, fundao sem fins lucrativos dedicada  promoo do esporte que serviria apenas de fachada para um esquema pesado de lavagem de dinheiro  algo em torno de 5,8 milhes de euros. Estamos tentando levar uma vida normal, disse a infanta. Inicialmente, ela iria depor no prximo dia 27, mas o juiz decidiu analisar o recurso em favor da princesa. J o rei Juan Carlos I comunicou, por meio de seu porta-voz, que no comenta decises judiciais.

O escndalo veio  tona em 2011, quando Urdangarin foi indiciado duas vezes. Na ocasio, o monarca espanhol afastou seu genro das atividades oficiais da famlia real por seu comportamento no exemplar. Mal sabia o rei que a filha caula estava envolvida. Algumas evidncias, como uma srie de e-mails apresentados por Diego Torres, ento scio de Urdangarin no instituto, comprovam que o parentesco entre Cristina e o rei foi utilizado para as negociaes, o que caracteriza a infanta como cmplice. Ela tinha um papel de figurao, fazendo aparentar que as operaes do Nos tinham o conhecimento do rei, disse o juiz. Resta agora saber se Juan Carlos I consegue sobreviver depois desse golpe. Especialistas apostam na sua renncia, afirmando, inclusive, que o prncipe Felipe est prestes a assumir o trono.


4. LEI CAROLINA DIECKMANN: APENAS O PRIMEIRO PASSO
Promulgao da primeira lei criada para regular crimes digitais no Brasil  um marco importante, mas lacunas no texto e infraestrutura deficitria da polcia podem atrapalhar
Joo Loes

Demorou, mas, na tera-feira 2 o Brasil finalmente promulgou a primeira lei criada exclusivamente para regular crimes digitais. Sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, a Lei 12.737 acabou conhecida como Lei Carolina Dieckmann, nome dado em referncia ao caso da atriz, que teve seu computador invadido e imagens de sua intimidade espalhadas pela internet. Pode parecer estranho, mas at a publicao da Lei 12.737, invadir dispositivos informticos no Brasil no era crime, afirma o advogado Renato Opice Blum, uma das maiores autoridades em direito digital do Pas. Casos como o de Carolina eram decididos com adaptaes de artigos que j constavam no Cdigo Penal brasileiro. Com a nova legislao, que criminaliza a invaso de dispositivos informticos (leia quadro ao lado), a esperana  que a Justia, munida de instrumentos prprios para esse tipo de situao, seja mais gil. Na prtica, porm, teremos algumas dificuldades para tornar essa lei efetiva, diz Opice Blum.

VTIMA - Fotos roubadas de Carolina Dieckmann nua foram parar na internet
 
A comear pelo prprio texto, que, segundo especialistas, est excessivamente ambguo. Quando o legislador fala em dispositivos informticos, mecanismos de segurana e obteno de dados, por exemplo, os limites pouco claros do que cada conceito representa podem dar margem a interpretaes oportunistas (leia quadro abaixo). Embora o esforo de se fazer uma lei mais genrica seja louvvel  quanto mais ampla a legislao, mais aplicvel ela  , lacunas em partes fundamentais podem ser problemticas. As especificidades tero de ser definidas pelos juzes nas primeiras decises, diz Leandro Bissoli, advogado especializado em direito digital do escritrio Patrcia Peck Pinheiro. Ser uma lei, portanto, que depender de jurisprudncias para funcionar plenamente.
 
Mas no  s a redao que preocupa. A natureza branda das penas impostas apresenta mais problemas. Segundo estimativas de Opice Blum, nos casos em que o acusado  ru primrio, boa parte das punies poder ser convertida em pagamento de cestas bsicas. E isso pode criar uma situao inusitada  por instituir uma pena branda demais, a nova lei pode estimular o delito, em vez de coibi-lo. Tem muito computador por a com informao que vale muito mais do que uma cesta bsica, diz Opice Blum. Aos criminosos, cometer o delito, ser pego e ter de pagar pelo crime de invaso pode compensar. Isso se o sujeito for pego, identificado e julgado a tempo, afirma o advogado. Como as penas para o crime digital so pequenas, eles prescrevem rapidamente, inviabilizando a punio.

NEM MICHELLE SE SALVA - Dados de dois cartes de crdito da primeira dama dos EUA foram hackeados
 
A Lei 12.737, portanto, ir requerer uma apurao veloz para funcionar. E isso expe um dos maiores entraves para seu sucesso: a falta de estrutura para apurar esse tipo de crime. Embora conte com alguns centros de excelncia em percia digital, o Brasil ainda carece de um corpo representativo de profissionais treinados para lidar com esses delitos. Hoje, por exemplo, quem busca a polcia para registrar um boletim desse tipo de ocorrncia, pode esperar at trs meses para ter seu equipamento periciado. Os rastros do crime digital so frgeis, alerta Bissoli. Sem uma percia competente e rpida, pouco se salva. E a lei, por mais bem intencionada que seja, perde a funo.
 
Nos Estados Unidos (EUA) e em pases da Europa, alm de leis muito mais duras  nos EUA, por exemplo, em casos de invaso as penas comeam em dez anos , h um grande investimento em infraestrutura para apurar o crime digital. Mas, se at a primeira-dama, Michelle Obama, teve dados de seus cartes de crdito hackeados (em meados de maro),  evidente que ainda h muito o que ser feito para que a internet se torne um ambiente seguro. A Lei Carolina Dieckmann  um marco importante nesse sentido no Brasil, mas, sem investimento e leis complementares, o caminho que ela abre pode se fechar rapidamente.


5. CICLISTAS MAIS PROTEGIDOS
Indstrias desenvolvem novas tecnologias para diminuir o nmero de acidentes envolvendo bicicletas
Suzana Borin

Os acidentes de trnsito envolvendo ciclistas no param de crescer nas cidades mais populosas do Brasil. Em So Paulo, por exemplo, de acordo com os dados da Secretaria de Estado da Sade, nove usurios de bicicletas so internados por dia, vtimas de acidentes nas ruas e avenidas, e, a cada dois dias, um destes internados morre. No Rio de Janeiro, o problema tambm  gritante, mesmo com 305 km de vias destinadas a esse meio de transporte. No domingo 31, por exemplo, a produtora de programas do canal GNT Gisela Matta morreu atropelada por um nibus enquanto andava de bicicleta nas ruas do Leblon. Apesar dos investimentos do setor pblico, os acidentes continuam. E esse no  um problema exclusivo do Brasil: cerca de 50% dos ciclistas mortos no trfego europeu colidiram com um carro. Toda essa estatstica problemtica fez com que empresas como a Volvo criassem novas tecnologias para deixar seus carros mais seguros e evitar colises fatais.

Vagalume  -Firefly: bicicleta que possui uma cpula de luzes LED que muda de cor conforme o comando do condutor
 
A partir de maio, a montadora sueca vai implantar em seus modelos 2013 um novo sistema de radares anticiclistas que aciona os freios automaticamente assim que  detectado o perigo de atropelamento iminente. Essa  uma evoluo do atual software de deteco de pedestres, j presente em modelos da montadora, como o sed S60 e a perua V60. Enquanto essas inovaes no chegam a todos os carros, estdios independentes espalhados pelo mundo criam objetos que deixem o ciclista com maior visibilidade nas ruas e estradas. Um capacete que possui luz de freio e farol e ainda d seta a partir de um dispositivo Bluetooth acoplado ao guido est entre as produes do designer hngaro Balzs Filczer. Outra novidade foi idealizada pelo estdio americano Geospace, autor do Firefly, que concebeu uma espcie de bicicleta do futuro. O equipamento foi coberto por uma cpula acrlica que, alm de proteger o condutor da chuva e do frio,  toda envolta por luzes LED que no deixam passar despercebido nenhum ciclista. Essas duas ltimas invenes ainda so apenas conceito, mas mostram a preocupao das empresas em evitar os constantes acidentes fatais entre ciclistas e motoristas.


6. A INDIANA JONES DO AMAZONAS
Apenas uma jovem arqueloga  responsvel por proteger os tesouros das populaes antigas dessa regio, povoada h sete mil anos 
Tamara Menezes

 ROTINA - Para fazer seu trabalho, Elen se embrenha pela floresta, viaja de barco pelos rios da regio e sobrevoa a Amaznia de helicptero
 
Ela se embrenha pela Floresta Amaznica, viaja de barco pelos rios da regio e sobrevoa o vasto Estado amazonense de helicptero no dia a dia de seu trabalho. Espcie de Indiana Jones nacional, a arqueloga Elen Caroline de Carvalho Barros, 24 anos,  a nica defensora da herana dos povos que viveram naquela rea nos ltimos sete mil anos. A responsabilidade  grande, mas Elen diz que adora desafios. Sozinha no Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional (Iphan) do Amazonas, ela d aval para o avano de projetos de infraestrutura a partir de pesquisas realizadas em stios arqueolgicos descobertos nas obras. Todas as grandes empreitadas, inclusive projetos do PAC (Programa de Acelerao do Crescimento) e da Copa do Mundo de 2014, precisam desse aval para obter as licenas ambientais obrigatrias.

Tem gente construindo sem saber se pode, mas tudo precisa de licena, diz Elen. Como toda a regio foi densamente povoada at dois mil anos atrs, h vestgios de povos indgenas por todo lugar. Ao todo, so 300 stios arqueolgicos no Estado e a misso dela  salvar os tesouros amaznicos. A demanda  imensa e nem sempre d para fazer da maneira ideal, diz Danilo Curado, funcionrio do Iphan de Rondnia que foi transferido temporariamente para auxili-la nas demandas do Amazonas. H ainda o problema de trfico de peas. At urnas indgenas com mais de um metro de altura so contrabandeadas, e tambm cabe a ela coibir os negcios fraudulentos. No passado, nessa regio, havia grandes aldeias que, embora no fossem cidades, eram sociedades complexas com diviso de trabalho, ordenamento urbanstico, comrcio e crenas compartilhadas.

A guardi de todo esse patrimnio tem origem humilde. Primeira da famlia, oriunda de Juazeiro (BA), a entrar para a universidade, ela precisou se mudar para So Raimundo Nonato (PI) para estudar, aos 17 anos. L, conheceu a pesquisadora Nide Guidon, sua referncia na arqueologia. Foi aprovada no concurso para o Iphan enquanto se graduava na Univasf (Universidade do Vale do Rio So Francisco). Cada camada de terra  uma pgina de livro que ns vamos lendo, elas mostram de onde viemos, diz Elen. Fui estudar arqueologia para saber de onde vim, saber mais dos meus antepassados.


7. SELVAGERIA  BRASILEIRA
A barbrie dos estupros coletivos cometidos por um bando no Rio de Janeiro expe um Pas em guerra com as mulheres. Em apenas trs anos, triplicou o nmero de casos, o que coloca o Brasil em situao to inaceitvel quanto a da ndia 
Wilson Aquino, Tamara Menezes e Laura Daudn

Uma moa de 21 anos, evanglica, nascida em uma pequena cidade fluminense, passava frias no Rio de Janeiro, em maro. No sbado 23, ela e um amigo resolveram conhecer a Lapa, bairro bomio da cidade. Na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, uma das mais movimentadas da zona sul, tomaram uma van. Era madrugada. Nesse veculo, a jovem perdeu a virgindade de forma brutal. Foi estuprada por trs criminosos que se revezaram no ato covarde durante uma hora. Depois do crime, ela foi abandonada em uma rua da cidade vizinha de Niteri. Sem saber do paradeiro do amigo, expulso do coletivo antes do ataque, ela comeou a correr feito louca por ruas que no conhecia, como disse  ISTO. Depois de finalmente conseguir ligar para o pai, a jovem se dirigiu  Delegacia de Atendimento  Mulher (Deam). Se a denncia apresentada por ela naquela noite tivesse sido investigada, outra jovem de 21 anos poderia ter tido destino diferente. No sbado 30, uma turista americana que fazia intercmbio foi estuprada pelo bando. A barbrie dos ataques sexuais exps um Brasil em guerra com as mulheres, um estado de selvageria chocante no qual o poder pblico se mostra ineficiente para proteg-las.
 
O mesmo grupo pode ter cometido at dez crimes similares, segundo estimativas do delegado Alexandre Braga, da Delegacia Especial de Atendimento ao Turista. Por enquanto, a polcia carioca confirmou trs, est em vias de fechar a apurao de um quarto estupro e investiga outras seis vtimas que no chegaram a registrar denncia. A extenso da violncia desse caso faz parte de um quadro mais amplo e aterrador: em 2012, a cada 24 horas, dez brasileiras foram estupradas por desconhecidos. Entre 2009 e 2012, esse tipo de crime teve um aumento de 162%, segundo o Ministrio da Sade. No mesmo perodo, o total de notificaes de estupro triplicou. Segundo o Instituto de Segurana Pblica, s na capital fluminense so registrados 16 estupros por dia. Em So Paulo, conforme dados da Secretaria de Segurana Pblica, o nmero chega a 35. Essas denncias incluem agresses sexuais antes consideradas atos libidinosos, como beijos forados, que passaram a ser enquadrados no espectro do crime de estupro em 2009, alm de violaes cometidas contra crianas e homens, dentro e fora do ambiente domstico.
 
A denncia da turista americana gerou uma resposta das autoridades policiais  muito diferente da dispensada  jovem brasileira. Em menos de 12 horas, os suspeitos foram identificados e presos em flagrante. Eles so Jonathan Froudakis de Souza, conhecido como Gordinho, 21 anos, Wallace Aparecido Souza Silva, o Cachorro, 19 anos, e Carlos Armando Costa dos Santos, o Baby, 21 anos. A quadrilha  composta por mais duas pessoas, que continuam foragidas. Eles seguem o perfil delineado por Danilo Baltieri, coordenador do Ambulatrio de Transtornos da Sexualidade da Faculdade de Medicina do ABC, para quem as caractersticas do criminoso que pratica um estupro coletivo so diferentes daquelas apresentadas por outros estupradores. Trata-se de um grupo de homens que compartilha crenas, que se cr imbatvel, superior, diz. Eles normalmente j esto envolvidos em outros crimes e cometem a agresso sexual mesmo sabendo que  uma prtica abominvel inclusive dentro da cultura penitenciria.

Ainda traumatizada, a moa que sonhava ter sua primeira relao sexual com um homem que amasse contou  ISTO que os bandidos tambm praticaram tortura psicolgica. Falavam que queimariam a van comigo dentro. Cheguei a falar para eles: vocs no tm irm nem me? Eles apenas riram, sem um pingo de humanidade, diz ela, que lamenta a inrcia da polcia. Se tivessem dado ateno ao meu caso, talvez no tivesse acontecido de novo. Imediatamente aps saber da priso de seus algozes, ela e o pai procuraram a polcia para fazer o reconhecimento. Ao saber que a denncia da jovem brasileira no tinha sido investigada, a chefe de Polcia do Rio, delegada Martha Rocha, exonerou a delegada da Deam de Niteri, Marta Dominguez, e a perita de So Gonalo, Martha Pereira. Quando as vtimas chegam  delegacia para registrar estupro, as primeiras perguntas sugerem que a mulher  responsvel pelo crime. Somos vistas como objeto de desejo e propriedade e, sendo assim, podemos ser culpadas pelo abuso, diz a secretria nacional de Enfrentamento  Violncia contra as Mulheres, Aparecida Rodrigues. 

O caminho percorrido pela turista americana foi outro: ela se dirigiu ao Consulado Americano e, de l, na companhia de uma assistente social, seguiu at a delegacia do turista. Em seu depoimento consta que ela foi estuprada pelos trs criminosos na presena de seu namorado, um francs de 23 anos, que, tal como ela, estudava portugus no Brasil. A americana voltou para os Estados Unidos na segunda-feira 1. Seu namorado continua no Pas e tem colaborado com a polcia, apesar de ainda estar em de choque. Por envolver dois turistas estrangeiros, o caso gerou grande repercusso internacional: jornais de todo o mundo lembraram que, apesar da patente falta de segurana, o Rio ser palco de eventos como a Copa das Confederaes e a Jornada da Juventude, ainda este ano, a Copa do Mundo, em 2014, e a Olimpada, em 2016. O episdio foi amplamente comparado ao ocorrido na ndia em dezembro de 2012, quando uma jovem estudante sofreu um estupro coletivo dentro de um nibus. A repercusso do caso indiano resultou em uma reduo de 25% no nmero de turistas que visitaram o pas no primeiro trimestre deste ano em comparao ao mesmo perodo do ano passado. O mercado turstico  muito sensvel a esse tipo de notcia. A pessoa que no conhece um lugar passa a conhec-lo atravs de um acontecimento que fere a sensibilidade das pessoas civilizadas e acaba pensando duas vezes antes de viajar, diz o socilogo Williams Gonalves, do Departamento de Relaes Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

O turismo, no entanto,  a parte menos sensvel e relevante do problema. O crime mostra que o notvel avano da legislao brasileira na ltima dcada e o expressivo aumento no nmero de notificaes no foram acompanhados de uma maior mobilizao do poder pblico para punir os responsveis. Apesar da inexistncia de dados oficiais sobre a taxa de condenao dos agressores processados, um estudo publicado em 2009 por Srgio Adorno, do Ncleo de Estudos de Violncia da USP, e por Wnia Pasinato, do Ncleo de Estudos de Gnero da Unicamp, mostra que apenas 36,4% dos boletins de ocorrncia de casos de estupro so convertidos em inqurito policial, mesmo quando se conhece o autor do delito. Outra investigao publicada em 2007 pela pesquisadora Joana Vargas, do Ncleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violncia Urbana da UFRJ, mostra que apenas 9% dos casos reportados de estupro na cidade de Campinas (SP) resultaram em condenao.
 
Respostas para essa impunidade podem estar na maneira como a sociedade e o poder judicirio olham para as mulheres. Em sua tese de doutorado, a pesquisadora da USP Daniella Coulouris ressalta que, por normalmente contar com poucas provas materiais e testemunhas, o julgamento de casos de estupro est essencialmente calcado nos depoimentos das vtimas. Alm de contornar a dor que supe recordar, detalhar e expor a violncia sofrida, o testemunho das mulheres tem de superar a inerente e histrica desconfiana com a qual se aceita a palavra feminina. Essa questo demonstra que um julgamento de estupro  especialmente desfavorvel s vtimas, porque a doutrina, a jurisprudncia e os juzes presumem o consentimento por parte da mulher adulta, cabendo  vtima provar o contrrio, afirma a pesquisadora na tese.

Esse exemplo expe as camadas mais profundas do problema: para acabar com a violncia contra a mulher,  necessrio alcanar a estrutura patriarcal milenar que organiza as sociedades e que se sobrepe a qualquer fronteira geogrfica e econmica. Segundo Nalu Faria, da coordenao nacional da Marcha Mundial das Mulheres, esse patriarcado se manifesta de maneira singular e ambgua no Pas. O Brasil  teoricamente livre do ponto de vista da sexualidade, mas se utiliza dessa liberdade para desqualificar e culpar as mulheres, diz. No temos de andar cobertas por um vu nem somos proibidas de dirigir, mas seguimos sujeitas a uma ideia de inferioridade que molda a maneira como as pessoas tratam as mulheres. Luiza Eluf, procuradora aposentada do Ministrio Pblico, afirma que o Brasil vive imerso em uma cultura de estupro, que envolve o desrespeito  mulher em todos os mbitos de sua vida. Ela  estuprada emocionalmente, intelectualmente, culturalmente todos os dias. Essa  a regra, diz. Para ela, a situao da opresso no Brasil  um vexame internacional, especialmente por explicitar a negligncia com que as delegacias lidam com os casos de violncia contra a mulher. 

A divulgao, no ltimo ano, de outros casos de estupro especialmente cruis envolvendo mais de dois agressores, aponta para um recrudescimento da violncia machista. Em fevereiro de 2012, na pequena cidade paraibana de Queimadas, cinco mulheres foram estupradas durante uma festa de aniversrio e duas delas acabaram assassinadas por reconhecerem seus algozes. Os nove suspeitos (trs deles menores de idade) foram condenados. Poucos meses depois, duas adolescentes de 16 anos foram estupradas por nove integrantes da banda de pagode New Hit, na cidade baiana de Ruy Barbosa. O episdio, que tem mobilizado os principais movimentos feministas brasileiros, deve ser julgado em setembro. A procuradora Marisa Marinho, responsvel pelo caso, espera que os agressores recebam pena mnima de dez anos. Entendemos, contudo, que no h dinheiro, valor pecunirio, que apague as lembranas da noite de terror e violncia sexual vivida pelas duas jovens, que borre as dores, os traumas e as perdas experimentadas por elas e suas famlias, afirma.Nenhuma indenizao, por mais vultosa que seja, devolver s adolescentes a vida que tinham antes.

